Disciplina EAD, Prof. Pablo Ornelas Rosa (UVV). Resumo das Aulas 1 a 7 (slides) e dos textos de fechamento das lições. Do Pensamento Social Brasileiro não há slide: a seção vem dos textos do AVA e dos enunciados das atividades, então confira com o material da turma.
Mapa da disciplina (8 encontros):
- Origens da Ciência Política
- Surgimento da Antropologia e estudos culturais
- Início da Sociologia
- Escola Sociológica de Chicago
- Pensamento Social Brasileiro
- Michel Foucault e Pierre Bourdieu
- O mundo digital e as Ciências Sociais
- Revisão
Introdução: as Ciências Sociais e suas áreas
- Ciências Humanas (Capes): Filosofia, História, Geografia, Psicologia, Teologia, Educação, Arqueologia e as Ciências Sociais.
- Ciências Sociais = Ciência Política + Sociologia + Antropologia.
- Obras de origem de cada uma:
| Área | Obra marco | Autor | Data |
|---|---|---|---|
| Ciência Política | O Príncipe | Maquiavel | 1532 |
| Sociologia | Curso de Filosofia Positiva | Comte | 1830 a 1842 |
| Antropologia | Cultura Primitiva | Tylor | 1871 (conceito clássico de cultura) |
Fonte: Aula 1, slides 3 a 6.
Aula 1: Ciência Política. Contrato social e natureza humana
Pergunta central: existe uma natureza humana inata? De onde vem o Estado?
Maquiavel (1469 a 1527, Florença)
- Preocupação: o Estado real, capaz de impor ordem, e não o Estado ideal de Platão, Aristóteles e Santo Tomás.
- Método: veritá effettuale (verdade efetiva): ver a realidade como ela é, não como deveria ser (do "dever ser" para o "ser").
- Natureza humana imutável e má: homens "ingratos, volúveis, simuladores, covardes ante os perigos, ávidos de lucro" (O Príncipe, cap. XVII). Daí o conflito e a anarquia.
- O poder político tem origem mundana: nasce da malignidade humana e é a única forma de enfrentar o conflito, mas nunca é garantido.
- Duas respostas à anarquia: Principado (o príncipe é um fundador do Estado em época de ameaça de decomposição, não um ditador) e República (quando a sociedade já achou equilíbrio; povo virtuoso, conflitos vistos como fonte de vigor).
- Virtù e Fortuna: a Fortuna é uma deusa aliada que precisa ser seduzida; quem tem virtù (coragem, virilidade) recebe seus favores.
Hobbes (1588 a 1679, Inglaterra)
- Natureza humana imutável (não muda com o tempo nem com a história).
- Estado de natureza = guerra de todos contra todos. Fazer guerra aos outros é a atitude racional quando não há Estado.
- Três causas de discórdia: competição (lucro), desconfiança (segurança), glória (reputação).
- O homem hobbesiano busca honra, não só bens (não é um homo oeconomicus). Vive de imaginação.
- Direito de natureza (jus naturale): liberdade de usar o próprio poder como quiser. Primeira lei: procurar a paz; se não der, usar todos os meios da guerra.
- Contrato social: os homens transferem seu poder a um soberano (homem ou assembleia) em troca de segurança. Não há pacto com o soberano, só entre os súditos. Por isso o poder soberano é absoluto e ilimitado (Leviatã).
- Não existe direito de resistir à espada do Estado. O Estado governa pelo medo, mas o terror real está no estado de natureza. A propriedade é criada e controlada pelo soberano.
Locke (1632 a 1704, Inglaterra)
- Pai do empirismo. Tábula rasa: a mente é um papel em branco, todo conhecimento vem da experiência (crítica às ideias inatas de Platão e Descartes).
- Dois tratados sobre o governo civil (1690, após a Revolução Gloriosa): o 1º refuta Filmer (direito divino dos reis); o 2º diz que só o consentimento dos governados legitima o poder.
- Estado de natureza: pacífico, de liberdade e igualdade, com razão e propriedade (vida, liberdade e bens). O indivíduo vem antes da sociedade.
- Propriedade nasce do trabalho (misturar trabalho à natureza) e existe antes do Estado, que não pode violá-la. Base para o valor-trabalho de Adam Smith.
- Contrato social = pacto de consentimento para proteger direitos que já existiam. Escolha do governo por maioria (respeitando a minoria). O Legislativo é o poder supremo; o Executivo e o Federativo (relações exteriores) lhe são subordinados.
- Direito de resistência: governo que viola a propriedade vira tirania e coloca-se em guerra contra a sociedade.
Rousseau (1712 a 1778, Genebra)
- Criticou os salões e a corte. Foi chamado de "primeiro revolucionário" e patrono da Revolução Francesa. Contrato Social e Emílio foram condenados em Paris.
- Discurso sobre a origem da desigualdade: a sociedade e as leis deram "novos entraves ao fraco e novas forças ao rico" e fixaram a propriedade e a desigualdade.
- Contrato Social: "o homem nasce livre e em toda parte encontra-se a ferros". Quer as condições de um pacto legítimo, que troque a liberdade natural pela liberdade civil.
- Vontade geral: obedecer à lei que se prescreve a si mesmo é ato de liberdade. O soberano é o povo; o governo é só funcionário dele.
- Não admite representação na soberania: "uma vontade não se representa". O governo tende a usurpar o lugar do soberano.
- Visão pessimista: povo que perdeu a liberdade dificilmente a recupera. A ação política é comparada à do médico.
Quadro comparativo (cai na prova)
| Maquiavel | Hobbes | Locke | Rousseau | |
|---|---|---|---|---|
| Natureza humana | Má, imutável | Má, imutável (guerra) | Razão e liberdade, paz relativa | Livre; a sociedade corrompe |
| Estado de natureza | Não usa o conceito | Guerra de todos contra todos | Relativa paz e harmonia | Liberdade natural perdida |
| Origem do poder | Malignidade humana, mundano | Contrato de submissão | Contrato de consentimento | Contrato e vontade geral |
| Poder | Principado ou República | Soberano absoluto | Limitado, com resistência | Soberania do povo |
| Propriedade | (não central) | Criada pelo Estado | Anterior ao Estado, vem do trabalho | Origem da desigualdade |
Fonte: Aula 1, slides 9 a 45 (Weffort, Os clássicos da política, vol. 1: Sadek, Ribeiro, Mello, Nascimento).
Fechamento da lição: democracia representativa e participação política
- O modelo político brasileiro é republicano e presidencialista, fundamentado em uma democracia representativa.
- A participação política pode ser coletiva ou individual, e eventual ou organizada. A organizada é a mais eficaz (Rosa e Sonni, 2012, p. 110).
- A Ciência Política começou discutindo estratégias de conservação do poder (Maquiavel) e hoje se preocupa em estimular a cidadania e a garantia de direitos a todos.
- Pergunta de reflexão do AVA: pelo voto ou pelo engajamento direto, você consegue medir seu impacto e sua participação na esfera política?
Fonte: ROSA, Pablo; SONNI, Rodrigo. Sociologia Política. Curitiba: IFPR, 2012.
Aula 2: Antropologia. Uma introdução ao estudo das culturas humanas
Base: Laraia, Cultura: um conceito antropológico.
Contra os determinismos
- Determinismo biológico: falso que raças ou grupos tenham capacidades inatas. Felix Keesing: não há correlação entre genes e comportamento cultural; qualquer criança pode ser educada em qualquer cultura.
- Dimorfismo sexual: a divisão sexual do trabalho é cultural, não biológica (ex.: carregar 20 litros de água na cabeça no Xingu é tarefa feminina e exige mais esforço que manejar o arco).
- Determinismo geográfico: clima e ambiente condicionam a cultura (Huntington, Civilization and Climate, 1915). Refutado a partir de 1920 por Boas, Wissler e Kroeber: há grande diversidade cultural no mesmo ambiente.
- O que explica as diferenças é a história cultural de cada grupo. O traço da espécie é a capacidade de aprender e a plasticidade. O ser humano rompeu seus limites biológicos porque tem cultura.
O conceito de cultura
- No fim do séc. XVIII: Kultur (alemão) = aspectos espirituais; Civilization (francês) = realizações materiais. Tylor (1871) sintetiza em Culture: "todo este complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade". Ênfase no aprendizado, contra o inato.
- Tylor era evolucionista unilinear ("antropologia de gabinete"): uma escala de civilização com a Europa no topo, influenciado por Darwin.
- Boas critica o evolucionismo (artigo "The Limitation of the Comparative Method"): particularismo histórico (Escola Cultural Americana). Cada cultura segue seu caminho conforme os eventos históricos que viveu. Tarefas: reconstruir a história de povos particulares e comparar.
Como surgiu a cultura (quem disse o quê)
| Autor | Explicação |
|---|---|
| Leakey e Lewin | Vida arborícola, visão estereoscópica e uso das mãos |
| Pilbeam | Bipedismo, resultado de várias pressões seletivas |
| Oakley | Habilidade manual da posição ereta estimulou o cérebro |
| Lévi-Strauss | Cultura nasce com a primeira regra: a proibição do incesto |
| Leslie White | Passagem ao humano quando o cérebro gerou símbolos |
| Geertz | O corpo se formou aos poucos e a cultura veio antes do cérebro atual. O ser humano é produto e produtor da cultura (a "teoria do ponto crítico" é errada) |
Ideias centrais sobre cultura
- Cultura é sistema de padrões de comportamento transmitidos socialmente que adapta as comunidades ao meio. A tecnologia e a economia de subsistência são o domínio mais adaptativo.
- A cultura condiciona a visão de mundo. Ruth Benedict (O crisântemo e a espada): cultura é uma lente.
- Etnocentrismo: considerar o próprio modo de vida o mais correto e natural. Fenômeno universal (Cheyene = "os entes humanos", Navajo = "o povo", esquimós = "os homens").
- O indivíduo participa parcialmente da cultura (nenhum domina todos os elementos).
- A cultura tem lógica própria. Lévi-Strauss (O pensamento selvagem): o pensamento mágico não é um começo da ciência, é um sistema articulado e simultâneo, não sucessivo.
- A cultura é dinâmica: mudança interna (lenta) e externa (contato; pode ser rápida e traumática).
Autores e obras do campo
- Malinowski, Argonautas do Pacífico Ocidental (1922): pioneiro da etnografia e da observação participante (vive entre o povo, aprende a língua, "ponto de vista nativo"). Estudou o Kula, sistema de trocas nas ilhas Trobriand (Melanésia).
- Marcel Mauss, Ensaio sobre a dádiva: a "regra de direito e de interesse" que impõe retribuir presentes. Dar, receber e retribuir. A dádiva é fato social total (envolve todos os aspectos do sistema social: parentesco, política, religião, economia). Não há presente desinteressado. Fundamenta a antropologia econômica.
- Pierre Clastres, Sociedade contra o Estado: dizer que sociedades primitivas "não têm Estado" pressupõe que lhes falta algo, o que é visão etnocêntrica. Etnocídio = destruição sistemática de modos de vida e pensamento diferentes.
Pós-colonial, decolonial e epistemologias do sul
| Pós-colonial | De(s)colonial | Epistemologias do Sul | |
|---|---|---|---|
| Quando e onde | Anos 1960, Ásia e África, após as independências | Anos 1990, América Latina | Anos 2000, Fórum Social Mundial |
| Ideia-chave | O colonialismo continua sob outros disfarces (dependência econômica, subalternização cultural) | O colonialismo acabou, mas ficou a colonialidade | Ciência moderna é um saber válido, não o único. Defende o interconhecimento e a tradução intercultural |
| Autor/conceito | Quijano | Boaventura de Sousa Santos: epistemicídio |
- A modernidade eurocêntrica tem três modos de dominação interligados: capitalismo, colonialismo e patriarcado.
- Colonialidade: tudo que difere da visão eurocêntrica é visto como inferior, marginal, irrelevante ou perigoso.
- Quijano: a raça foi criada para legitimar a dominação da conquista da América e virou o instrumento mais eficaz e durável de dominação social.
Fonte: Aula 2, slides 3 a 40.
Fechamento da lição: relativismo cultural e os Nacirema
- Ao analisar outra cultura tendemos ao etnocentrismo, porque partimos do nosso próprio referencial. Refletir sobre isso evita atitudes preconceituosas, racistas e xenofóbicas.
- Relativismo cultural: compreender uma prática cultural a partir do contexto em que ela está inserida. É o contrário do etnocentrismo.
- Horace Miner, "Ritos corporais entre os Nacirema" (1976): descreve de forma caricata práticas comuns dos EUA (banheiro como "santuário", farmácia e remédios como "feitiços e poções", médico como "curandeiro", farmacêutico como "herbanário") como se fossem de um povo exótico e primitivo. Nacirema é American escrito ao contrário.
- Lição do texto: o estranhamento natural diante de outra cultura aparece até na análise das nossas próprias atividades comuns, então o relativismo deve valer também para o que nos parece "normal".
- Pergunta de reflexão do AVA: qual o papel da diversidade cultural na vida em sociedade?
Fonte: MINER, Horace. Ritos corporais entre os Nacirema. In: ROMNE, A. K.; VORE, P. L. (orgs.). You and the others: readings in introductory anthropology. Cambridge: Erlich, 1976.
Aula 3: Sociologia. Comte, Marx, Durkheim e Weber
Contexto
Surge depois da Revolução Francesa e da Revolução Industrial, em meio ao caos político e à miséria urbana. Antes, o Renascimento (séc. XV, antropocentrismo no lugar do teocentrismo) e o Iluminismo (potencial da razão). A Revolução Francesa mudou a política; a Industrial, a economia.
Comte (1798 a 1857)
- Criou a física social, depois renomeada sociologia. Lema: "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim."
- Positivismo: aplicar às ciências sociais os métodos das ciências naturais. Rompe com a filosofia política especulativa.
- Estática social (ordem, conexão entre política, economia e cultura) e dinâmica social (progresso).
- Lei dos três estágios: teológico, metafísico e positivo (o mais avançado, baseado só no conhecimento científico). Na hierarquia das ciências, a sociologia fica no topo.
- No fim da vida propôs a Religião da Humanidade (Catecismo Positivista, 1852). Por isso é visto como autor conservador.
- Comte deu o nome, mas não deu um método preciso. Isso coube a Durkheim.
Durkheim (funcionalismo)
- Obras: Divisão do Trabalho Social (1893), As Regras do Método Sociológico (1895), O Suicídio (1897), As Formas Elementares da Vida Religiosa (1912), Educação Moral (1925).
- Critica Comte: não fundou a sociologia como ciência bem definida, ficou na metafísica.
- Primado do objeto: a sociedade precede o indivíduo e é mais que a soma deles. Quem molda o indivíduo é a sociedade; a ideia de sujeito individual é construção social.
- Regra de ouro: tratar os fatos sociais como "coisas", com neutralidade.
- Fato social: maneira de agir com três características: exterior, coercitivo e objetivo. Exemplo do professor que faz chamada por exigência da instituição.
- Solidariedade mecânica (semelhança, consciência coletiva, direito repressivo, sociedades segmentárias, tipo Idade Média) versus solidariedade orgânica (diferença, divisão do trabalho, consciência individual, direito restitutivo, modernidade).
- Anomia: ausência de normas, desintegração social. Para ele, passageira, um desajuste temporário.
- Estado: órgão de reflexão e "inteligência institucionalizada". Direito e moral materializam a lógica de cada sociedade.
Marx (materialismo histórico e dialético)
- Não era sociólogo de profissão. Influências: esquerda hegeliana, socialistas utópicos (Fourier, Saint-Simon, Proudhon), economia política inglesa (Adam Smith, Ricardo).
- Dialética: tese, antítese, síntese (negação da negação); realidade é movimento e contradição. Em Hegel a dialética está "de cabeça para baixo" (as ideias criam a realidade). Marx a põe "de cabeça para cima": as relações materiais de existência criam as ideias.
- Trabalho é o conceito fundante: transforma a natureza e o próprio ser humano. A história é fruto do trabalho humano. Os humanos fazem a história, mas não como querem, e sim sob condições herdadas.
- Infraestrutura (economia: forças produtivas + relações de produção) condiciona a superestrutura (Estado, política, ideologia, cultura). Os dois juntos formam o modo de produção.
- Classes sociais: nascem das relações de produção. No capitalismo: proprietários dos meios de produção (burguesia) e não proprietários (proletariado, que vende sua força de trabalho).
- Estado: instrumento da classe dominante. Ideologia: conjunto de falsas representações que legitima a dominação ("as ideias da sociedade são as ideias da classe dominante").
- Modos de produção: primitivo, escravista, asiático, feudal, capitalista, comunista.
- Teses sobre o capitalismo: objetivo é o lucro; o lucro vem da exploração (mais-valia); base em relações de classe; o indivíduo é alienado (fetichismo da mercadoria).
- Quatro alienações (Manuscritos Econômico-Filosóficos; o slide indica 1846, a data corrente é 1844; só conhecidos em 1932): do produto do trabalho, da atividade de produzir, da espécie (dos semelhantes) e da própria natureza humana.
- Fetichismo: o dinheiro parece ter vida própria; sujeitos viram objetos e mercadorias viram sujeitos.
Weber (sociologia compreensiva)
- Influências: Kant, Nietzsche, Marx, neokantianos (Dilthey, Windelband, Rickert), Tönnies e Simmel.
- Primado do sujeito: o indivíduo é o fundamento da sociedade. Critica o positivismo: ciências sociais usam explicação e compreensão; as leis são só probabilidades típicas.
- Ação social é o objeto da sociologia: ação orientada pelo comportamento de outros, com sentido visado pelo agente. A tarefa é compreender o motivo/sentido.
- Tipo ideal: acentuação unilateral de pontos de vista para formar um quadro homogêneo de pensamento. Não existe em forma pura na realidade; serve de instrumento de comparação.
- A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1905): a ética protestante (calvinismo, vocação de Lutero, ascese do mundo) favoreceu, não gerou sozinha, o capitalismo. Religiões orientais levam à contemplação, a ocidental ao engajamento.
- Racionalização: religião, desencantamento do mundo, racionalização. Resultado: perda de liberdade e burocratização, a "jaula de ferro" (o homem escravo da própria criação).
- Ciência e política são vocações separadas. Distinção entre juízo de fato e juízo de valor: o cientista só emite juízos de fato.
- Poder = capacidade de impor a própria vontade. Dominação = probabilidade de obediência. Três tipos puros: legal-racional (crença na legalidade das regras), tradicional (crença no caráter sagrado do passado), carismática (afeto e confiança no líder).
- Estratificação: três dimensões. Classes (econômica, posse de bens), partidos (política, poder) e estamentos (cultural, prestígio e estilo de vida).
- Burocracia: jurisdições fixas, hierarquia, normas escritas, treinamento especializado. Problema para a democracia: afasta o cidadão das decisões.
Quadro comparativo (cai na prova)
| Comte | Durkheim | Marx | Weber | |
|---|---|---|---|---|
| Método | Positivismo | Funcionalista | Histórico-dialético | Compreensivo |
| Primado | Objeto/sociedade | Objeto/sociedade | Estrutura e trabalho | Sujeito/indivíduo |
| Conceito central | Três estágios | Fato social, solidariedade, anomia | Modo de produção, classes, alienação | Ação social, tipo ideal, dominação |
| Teoria da modernidade | Progresso e ordem | Divisão do trabalho social | Modo de produção capitalista | Racionalização e desencantamento |
| Teoria política | Religião da Humanidade | Culto do indivíduo | Comunismo | Liderança carismática |
Fonte: Aula 3, slides 3 a 60 (Aron; Quintaneiro, Barbosa e Oliveira; Rosa e Sonni; Sell).
Fechamento da lição: tecnologia e sociedade
- A Sociologia surge em meio a intensas transformações sociais e políticas e, principalmente, a profundas mudanças tecnológicas na forma de reproduzir o trabalho (Revolução Industrial).
- Por isso virou tema central analisar a capacidade da tecnologia de produzir efeitos sociais a curto, médio e longo prazo.
- Os três clássicos (Marx, Durkheim e Weber) analisaram a relação entre mudança sociopolítica e mudança tecnológica: Marx nas forças e relações de produção, Durkheim na divisão do trabalho social, Weber na racionalização e na burocracia.
- Material do AVA: debate "Tecnologia e sociedade" (Canal Futura, 2013), que pergunta quais mudanças na sociedade atual vêm do desenvolvimento tecnológico.
Fonte: CANAL FUTURA. Tecnologia e sociedade: Debate. YouTube, 23 set. 2013.
Aula 4: Pierre Bourdieu e a sociologia reflexiva
- Francês (1930 a 2002), de família camponesa, formado em filosofia, professor do Collège de France. Primeiras pesquisas na Argélia (sociedade cabila): Sociologia da Argélia (1958). Último livro: Esboço para uma autoanálise.
- Três conceitos para compreender o mundo social: campo, habitus e capital.
- Supera a oposição entre subjetivismo (Sartre: a vida social como ação de sujeitos livres) e objetivismo (estruturalismo de Lévi-Strauss: reduz práticas a esquema abstrato). Estrutura × agência: cada polo isolado distorce.
Campo
- Microcosmos de atividade humana (político, artístico, filosófico, imobiliário...) com regras próprias, em disputa por um capital específico. Conceito herdado de Durkheim e Weber (esferas).
- A distribuição desigual do capital separa dominantes e dominados. Dominantes defendem a ortodoxia (conservação). Dominados e recém-chegados usam estratégias de subversão (a heresia).
- Os agentes têm "cumplicidade objetiva" e precisam aprender as regras do jogo. O interesse não é só material: é um investimento específico no que está em jogo.
Capital (crítica ao reducionismo econômico de Marx)
| Tipo | O que é |
|---|---|
| Econômico | Riqueza material |
| Social | Rede de relações que o agente consegue mobilizar |
| Cultural | Educação recebida e habilidades adquiridas |
| Simbólico | Reconhecimento e prestígio. Não tem base autônoma: é qualquer capital quando conhecido e reconhecido como legítimo. Resiste ao cálculo |
Em qualquer capital há relações de dominação. Bourdieu "fragmenta" a luta de classes: classes são estratos que se distinguem por ocupação, renda, consumo e prestígio, mas o capital econômico facilita obter os outros.
Habitus
Conjunto de disposições duráveis adquiridas pela socialização e educação. Funciona como uma gramática: gera práticas e é também esquema de percepção e classificação. Dá o "senso de lugar" de cada um e faz o mundo social parecer evidente. Gosto = habitus: os agentes se auto-classificam pelas escolhas (roupas, bebidas, esportes). Exemplo: quem bebe champanhe, uísque ou vinho tinto.
Outros pontos
- Estratégias de condescendência: o superior nega simbolicamente a distância social ("ele é uma pessoa simples"), o que na verdade reconhece a distância.
- Espaço social = espaço simbólico: duas dimensões, o volume global de capital e a estrutura do capital (peso do econômico versus cultural).
- Lutas simbólicas pelo monopólio da nominação legítima (quem define a visão de mundo legítima). Títulos de nobreza e títulos escolares são títulos de propriedade simbólica.
- A legitimação da ordem social não é só propaganda: os agentes aplicam ao mundo categorias que vêm das próprias estruturas, e percebem tudo como evidente. O poder objetivo se reproduz em poder simbólico.
- Há um ponto de vista oficial, o das autoridades.
Fonte: Aula 4, slides 3 a 29 (Bourdieu, Coisas ditas, 2004; Poder simbólico, 1989).
Aula 5: Michel Foucault e o pós-estruturalismo
- Francês (1926 a 1984). Obras: História da Loucura (1961), O Nascimento da Clínica (1963), As Palavras e as Coisas (1966), A Arqueologia do Saber (1969). Professor no Collège de France; ativista contra o racismo e pela reforma penal.
- "Historiador do presente": fugia dos universais e do positivismo (dizia fazer "anticiências"). Objetivo: como o sujeito foi produzido.
- A modernidade nasce quando conduzir condutas vira atividade calculada e a normalização se generaliza (criar e multiplicar o normal), com origem na pastoral cristã e assimilada pelo Estado.
Três momentos
| Fase | Pergunta | Método |
|---|---|---|
| 1. Arqueologia do saber | Que saberes produziram o sujeito? | Estuda o discurso ("coisas ditas") e o enunciado; as epistemes (regras que limitam o pensável) |
| 2. Genealogia do poder | Como o poder atravessa e constitui o sujeito? | Herdada de Nietzsche. Método dissociativo, paródico e disruptivo. Conceitos de proveniência (corpo e história) e emergência (lutas, estados de força) |
| 3. Ética e estética da existência | Como o sujeito se relaciona consigo? | Cuidado de si: regras que o sujeito dá a si mesmo, a vida como obra de arte; gera focos de resistência à normalização |
Poder
- Crítica à visão tradicional: o poder não é algo que se possui nem só repressão; ele é produtivo (produz verdade, saber, sujeitos). Somos obrigados a produzir verdade, a confessá-la.
- O poder circula em rede, em cadeia; indivíduos são ao mesmo tempo efeitos e intermediários do poder, nunca alvo inerte.
- Estuda o poder em suas extremidades, capilar, além do Estado e do direito, e além do modelo Leviatã de Hobbes.
Quatro tecnologias de poder
| Tecnologia | Característica |
|---|---|
| Pastoral | Conduzir o rebanho à salvação. Confissão, direção e exame de consciência, hierarquia clero e leigos. Repercute na polícia, no liberalismo e no neoliberalismo |
| Soberano | Direito de causar a morte ou deixar viver (vem da patria potestas). Apreensão de coisas, tempo, corpos e vida |
| Disciplinar | Adestra, "fabrica indivíduos", toma o corpo como objeto e instrumento. Anátomo-política do corpo; microfísica do poder |
| Biopoder/biopolítica | Substitui "causar a morte" por "causar a vida". Dois polos: disciplinas do corpo e regulação da população (corpo-espécie). Dispositivo de segurança |
- Governamentalidade: conjunto de instituições, cálculos e táticas que exercem o poder sobre a população, com a economia política como saber e os dispositivos de segurança como instrumento. Desde o séc. XVIII há a governamentalização do Estado: foi ela que permitiu ao Estado sobreviver.
- Problema do governo (séc. XVI): governo de si, das almas, das crianças, dos Estados. Tratados deixam de ser conselhos ao príncipe e viram arte de governar.
- Três dispositivos da genealogia do sujeito moderno: disciplinar, segurança e sexualidade.
- Desdobramentos citados: racionalidade neoliberal (homo oeconomicus, "empresário de si"), gênero e sexualidade (Judith Butler), decolonialidade (racismo de Estado) e governamentalidade algorítmica nas plataformas digitais.
Fonte: Aula 5, slides 3 a 35 (Foucault, 1988, 1997, 2000).
Aula 6: Escola Sociológica de Chicago
Origem
- Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago fundado em 1892 (primeiro dos EUA), com dinheiro de John D. Rockefeller. Plano de Harper: University proper, Extension Division (abre a universidade à cidade) e Publication Work.
- A "Escola" = pesquisas empíricas de 1915 a 1940, voltadas a problemas sociais concretos, com trabalho de campo ("contra a sociologia de poltrona").
- Albion Small dirigiu o departamento até 1924 e criou o American Journal of Sociology (1895). Influências: pragmatismo (Dewey), George Mead (interacionismo simbólico) e Simmel. Cadeia de orientações: Simmel, Park, Hughes, Becker.
- Chicago como laboratório: de 200 habitantes (1833) a quase 1,7 milhão (1900); migração rural e imigração (alemães, irlandeses, poloneses, italianos, judeus...). A cidade "mais pesquisada do mundo".
Autores e ideias
| Autor | Ideia |
|---|---|
| William Thomas | Teorema de Thomas: "se um homem define uma situação como real, ela se torna real em suas consequências". Organização, desorganização e reorganização social; a imigração é indício de desorganização da comunidade de origem, não sua causa. Criticou a explicação racial |
| William Foote Whyte | Refutou a desorganização: comunidades italianas têm organização complexa própria. O problema é a organização não se conectar à sociedade maior (gera organizações políticas e mafiosas locais) |
| Park e Burgess | Adaptação (grupos rivais acomodam diferenças; gangues viram clubes) e assimilação (valores se fundem, sem perder particularidades). Preconceito racial vem do conflito de interesses econômicos, não da ignorância |
| Frederic Thrasher | Gangues como resposta à desorganização social, substituto do que a sociedade não dá. Cada gangue é única |
| Clifford Shaw | História de vida do delinquente (The Jack-Roller, o jovem Stanley), em primeira pessoa, cruzada com outros dados |
| Shaw e McKay | Delinquência ligada à estrutura física da cidade: morar em certas áreas já é indício de delinquência (mais desemprego, suicídio, doença, famílias dissociadas) |
| Edwin Sutherland | Associação diferencial: ninguém nasce criminoso, aprende a ser em grupos íntimos. The Professional Thief e crime do colarinho branco (White Collar Crime), parte da obra foi censurada por décadas |
Declínio e segunda geração
- 1935: rebelião na American Sociological Society derruba a supremacia de Chicago. Vence uma sociologia quantitativa e positivista; Parsons publica A Estrutura da Ação Social (1937). Financiamento do exército dá impulso às técnicas quantitativas.
- Segunda geração: ponte é Everett Hughes (aluno de Park e Burgess, professor de Becker e Goffman). Lema: "A metodologia é importante demais para ser deixada aos metodólogos."
- Correntes: interacionismo simbólico (raízes em Dewey e Mead; termo criado por Herbert Blumer, 1937) e etnometodologia (Garfinkel, anos 1960, estudou em Harvard com Parsons, não é diretamente de Chicago). Ambas contrariam o sujeito durkheimiano: o fato social é construção dos indivíduos na interação.
Becker e Goffman
- Howard Becker, Outsiders: o desvio não é qualidade do ato, é resultado da aplicação de uma regra e do rótulo ("etiquetagem"). Os grupos que criam as regras têm poder de classificar. O infrator também pode ver seus juízes como outsiders.
- Erving Goffman: obras A representação do eu na vida cotidiana (Ilhas Shetland), Manicômios, prisões e conventos (hospital psiquiátrico), Estigma (deterioração da identidade). Definição da situação; a vida social como teatro, em que cada um preserva a fachada (face); rituais de interação. Bourdieu o chamou de descobridor do "infinitamente pequeno".
Observação: no slide 27 o título "Sutherland e o crime do colarinho branco" aparece repetido por erro, o conteúdo é sobre Hughes. No slide 15 o nome correto é William Foote Whyte.
Fonte: Aula 6, slides 2 a 35.
Aula 7: Introdução à Sociologia Digital
- Smartphone como "lar portátil", e não só aparelho. S.M.A.R.T. = Self-Monitoring, Analysis and Reporting Technology (IBM e Compaq, 1995).
- História da computação: Turing; Z-3 (1941), Colossus (1943), ENIAC (1946), UNIVAC I (1951, processou o censo dos EUA); transistor (1947).
- História da internet: ARPANET (1969, Departamento de Defesa, para resistir a ataques nucleares); microprocessador Intel (1971); PC da IBM (1981); divisão em MILNET e ARPA-Internet (1983); privatização da internet em 1995; Web 2.0 (2000, "internet de plataforma": Orkut, Facebook).
- Dois momentos analíticos:
- Precursores: sociedade de controle (Deleuze), ciberespaço (Lévy), sociedade em rede (Castells).
- Plataformistas: psicopolítica (Han), dataísmo (Harari), capitalismo de vigilância (Zuboff), capitalismo de plataforma (Srnicek), sociedade da plataforma (Van Dijck, Poell e De Waal), colonialismo de dados (Silveira), dataficação (Lemos), governamentalidade algorítmica (Rosa).
- Plataformização: penetração das infraestruturas, processos econômicos e estruturas de governo das plataformas em todos os setores e esferas da vida (Poell, Nieborg, Van Dijck). Três dimensões: infraestruturas de dados, mercados (multilaterais) e governança (classificação algorítmica decide o que fica visível).
- Dataficação (Mayer-Schoenberger e Cukier, 2013): transformar ações em dados quantificáveis para rastrear e prever. Lemos: digitalização, performatividade dos dados e uma forma de conhecer. A gestão algorítmica é consequência da dataficação.
- Google como lente do mundo: o negócio central é vender atenção a anunciantes (Vaidhyanathan). Exemplo de dataficação da justiça: processos do TJ-SP indo para a nuvem da Microsoft (2019).
- Zuboff: o capitalismo de vigilância toma a experiência humana como matéria-prima gratuita. Superávit comportamental vira produtos de predição vendidos nos mercados de comportamentos futuros.
- Srnicek: cinco tipos de plataforma
| Tipo | Exemplo |
|---|---|
| Publicitárias | Google, Facebook |
| De nuvem | Amazon Web Services |
| Industriais | General Electric, Siemens |
| De produtos | Rolls-Royce, Spotify |
| Austeras | Uber, Airbnb (subcontratam, fogem das garantias trabalhistas) |
Uma mesma empresa pode reunir vários tipos.
- Tecnopolítica: uso das plataformas por movimentos sociais (origem: Espanha, ciclo das primaveras e occupy). Da Empoli: a política antes era centrípeta (disputar o eleitor médio); com dados é centrífuga (inflamar nichos e somá-los).
- Ressalva do professor: outras mídias não ficaram obsoletas e há resistência (Nemer).
Fonte: Aula 7, slides 2 a 21.
Fechamento da lição: globalização e desigualdade
- Globalização: elevação das relações interpessoais e internacionais a nível mundial. O impacto dos acontecimentos é "repartido" entre as nações, mas não igualmente: países mais pobres sofrem mais (exemplos: pandemia de covid-19 e aquecimento global).
- Max Lawson (Jacobin, 2024): desde 2020 a pobreza global ficou acima de 2019 e a desigualdade entre o mundo rico e o Sul Global cresce pela primeira vez em 30 anos. Já a riqueza dos bilionários (cerca de 3 mil no mundo) subia ~7% ao ano na última década e acelerou para 11,5% ao ano desde 2020. Sete em cada dez das maiores empresas do mundo têm CEO ou principal acionista bilionário.
- Conclusão do texto: a globalização produz efeitos contraditórios e desiguais, e só uma análise interdisciplinar e diversa evita enviesamentos ideológicos ou morais.
- No século XXI as Ciências Sociais ganham novos desafios: desigualdades globais e transformação do mundo do trabalho. Problemas como mudanças climáticas e pandemias não se entendem só no âmbito local: têm relação com processos globais.
Fonte: LAWSON, M. A desigualdade global disparou desde a pandemia. Revista Jacobin, 2024.
Fechamento da lição: a sociedade do cansaço (Byung-Chul Han)
- Filósofo sul-coreano, autor de Sociedade do cansaço (2015).
- A modernidade é marcada por estímulos contraditórios que fazem o indivíduo querer sempre mais, fazer mais e se superar, mesmo sem necessidade. É uma positividade negativa, que adoece: burnout e depressão.
- Excesso de positividade = excesso de estímulos, informações e impulsos. Fragmenta e destrói a atenção. A multitarefa não é progresso civilizatório, é retrocesso: é técnica de atenção de animais selvagens para sobreviver.
- Autoexploração: "o explorador é ao mesmo tempo o explorado". É mais eficiente que a exploração do outro porque anda junto com o sentimento de liberdade. Não se limita ao trabalho formal com carga horária imposta; vem do desempenho, do trabalho, dos estudos e da vida familiar acumulados.
- Redes sociais: mostram uma vida irreal, distante da experiência da maioria, o que gera desejo de ter aquilo e escapismo. Não aliviam o estresse, intensificam a comparação.
- Perda da diferença e padronização de opiniões não dependem de censura estatal: acontecem no excesso de positividade e informação.
Fonte: HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015, p. 17.
Plataformas e vida social (temas das atividades do AVA)
- Streaming (Netflix, Spotify): ampliou o acesso a bens culturais, com consumo instantâneo e personalizado, e substituiu cinema e TV aberta. Também reforça a globalização cultural e a concentração de mercado e de poder em grandes corporações digitais, o que gera preocupação com a diversidade cultural. Tem implicações econômicas e sociais amplas, não é só entretenimento.
- Comunidades virtuais: novas formas de sociabilidade (globais ou locais, em torno de causas). Criam pertencimentos múltiplos e identidades coletivas, mas os algoritmos podem criar bolhas informacionais e limitar a diversidade de opiniões. A internet produz pluralidade e fechamento ao mesmo tempo. Bolha não fortalece o pluralismo democrático e comunidade digital não elimina a interação presencial.
- Política online: a internet impulsionou mobilizações como a Primavera Árabe e as Jornadas de Junho de 2013 no Brasil, conectando pessoas em torno de causas. O mesmo ambiente permite fake news e manipulação de algoritmos (caso Cambridge Analytica), um risco real para a democracia. A internet não eliminou a desigualdade de acesso à política.
- Economia do compartilhamento e uberização (Tom Slee): em tese colaborativa e comunitária, na prática as empresas resistem a formalizar vínculo de trabalho para fugir dos custos trabalhistas, o que gera precarização. A uberização e a economia de bicos (gig economy) decorrem desse modelo. A Uber alega ser empresa de tecnologia, não serviço de transporte, para fugir da regulação.
Fonte: textos e atividades de fechamento do AVA (Slee, Uberização, 2017).
Ciências Sociais e intervenção: problemas sociais urbanos
Texto de fechamento da lição, com o artigo de Flávio Gomes (2024).
- Ideia central: as Ciências Sociais nasceram de um processo histórico em que várias áreas do saber convergiram até delimitar seus campos. Mantêm diálogo interdisciplinar e reciprocidade com outras áreas (trocas teóricas e metodológicas). Isso ajuda profissões e campos de atuação a entender a sociedade em que atuam. Papel singular: mediar teoria e prática social.
- Problemas sociais urbanos: desemprego, habitação precária, violência, mobilidade, serviços públicos deficientes, acessibilidade, transporte ineficiente, drogas. Fatores externos: questões ambientais, burocracia excessiva, impunidade, carga tributária.
- Causa histórica: urbanização acelerada do séc. XX e êxodo rural (escassez de oportunidades no campo), com crescimento urbano desordenado.
- Déficit habitacional: moradias precárias em áreas de risco (encostas, várzeas, margens de córregos). A omissão do poder público e a especulação imobiliária empurram os pobres à periferia: ciclo de segregação socioespacial e formação de favelas, com aumento de pessoas em situação de rua e envolvimento com drogas.
- Violência e criminalidade nascem do caldo de desigualdade, desemprego estrutural e negação de direitos básicos.
- Mobilidade urbana: custo econômico (o chamado "custo Brasil"), transporte superlotado, tarifas abusivas, horas perdidas e poluição, que aumenta a mortalidade.
- Contribuição das Ciências Sociais: apoiar políticas públicas e projetos interdisciplinares em saúde, assistência social, educação, cultura e justiça. Pesquisa social fundamentada para reduzir desigualdades e implementar redistribuição de renda (muitas vezes criticada como assistencialista, mas vital para a sobrevivência mínima).
Fonte: GOMES, Flávio. Ciências sociais: evolução, atuação, importância e perspectivas contemporâneas para a sociedade. Revista QUALYACADEMICS, v. 1, n. 2, 2024, p. 160 a 172.
Contexto histórico: do Estado moderno à Sociologia
Complemento a partir dos enunciados das atividades do AVA. Não vem dos slides: confira com o material da turma.
- Filosofia clássica (Platão, Aristóteles) lançou as bases da teoria política; as noções de república e ética da Grécia orientaram a transição dos regimes despóticos para as democracias liberais. Formas políticas antigas (democracia ateniense, leis escritas da Suméria) já traziam elementos do Estado moderno, mas a cidadania era restrita, e os direitos individuais e humanos só se consolidaram amplamente no Estado moderno.
- Renascimento (séc. XV): antropocentrismo no lugar do teocentrismo. Iluminismo (séc. XVIII): soma o potencial da razão. Dois fatores que afirmam a ciência e a competência humana: cientificismo e humanismo.
- Estado moderno: nasce da modernidade e foi elaborado por vários pensadores. A teoria contratualista não ficou ultrapassada: alimenta a democracia liberal. Separação dos poderes é característica do Estado moderno (ideia de Locke, sistematizada por Montesquieu e consolidada nas revoluções liberais). Maquiavel defendia separar política de religião, tratando o poder pela eficácia e não pela moral religiosa.
- Maquiavel, O Príncipe: o príncipe não precisa ter todas as virtudes (piedade, lealdade, humanidade, integridade, religiosidade), basta aparentá-las. O que importa é o êxito: vencer e conservar o Estado. Precisa de respeito e temor, e nunca deve ser odiado. Nada de direito divino nem de propaganda como garantia.
- Hobbes: o soberano submete interesses pessoais à vontade coletiva para garantir segurança e estabilidade (a paz que evita a guerra de todos contra todos).
- Locke: a tábula rasa é a ideia de natureza humana do autor (conhecimento vem da experiência, não de ideias inatas). Não diz que humanos são violentos por ignorância e não nega os direitos naturais à vida e à propriedade, que são centrais nele. É peça-chave do liberalismo político (Estado de garantias mínimas).
- Rousseau: "o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe". A propriedade privada origina a desigualdade e o pacto social submete as pessoas à vontade geral. "O homem é o lobo do homem" é de Hobbes e "é melhor ser temido do que amado" é de Maquiavel.
- Revolução Industrial (tear a vapor, por volta de 1780): inclui as leis de cercamento (Inglaterra), que causaram êxodo rural; o surgimento das cidades e do trabalho assalariado empobreceu populações e liberou mão de obra barata para o capitalismo nascente.
- Interdisciplinaridade: integração de abordagens e compartilhamento de saberes entre disciplinas; é o caráter das Ciências Sociais diante de fenômenos plurais (Jodelet, 2020). Diferente de multidisciplinaridade (disciplinas lado a lado) e de transdisciplinaridade (vai além das fronteiras disciplinares).
- Papel interventivo das Ciências Sociais: o cientista social lida com informação e pode contribuir para a conscientização (Souza, 2009). Exemplos: orientar políticas públicas (inclusive de lazer, com questionários), usar etnografia hoje para entender hábitos de consumo, mesmo tendo sido pensada para comunidades tradicionais. A ONU define cursos de ação global por decisões políticas e diplomáticas, não porque a Ciência Política "defina" esses cursos. Sociologia e Filosofia diferem no modo de análise (a Sociologia é empírica e a Filosofia, mais reflexiva e abstrata), e não ao contrário.
Pensamento Social Brasileiro e formação do Brasil
Não há slide deste tópico no material enviado. Esta seção vem do texto de fechamento da lição (DaMatta) e dos enunciados das atividades do AVA. Os conceitos de Holanda, Faoro e da formação histórica seguem o que os próprios enunciados afirmam e o conhecimento corrente da área: confira com o material da sua turma antes da prova.
Dicotomias do Brasil (DaMatta)
- O Brasil tem fortes contradições sociais e, ao mesmo tempo, grande diversidade de povos, culturas e perspectivas. A dinâmica social oscila entre percepções contrárias que marcam a singularidade do povo brasileiro. Essas dicotomias servem de chave explicativa para comportamentos e tendências típicas.
- Algumas são concretas; outras estão na subjetividade e geram polêmica: o mito da democracia racial e o "jeitinho brasileiro".
- Exemplos do século XXI: riqueza × pobreza, vida pública × vida privada, cordialidade × violência (oscila entre acolhimento e repressão, no pessoal e no institucional).
Fonte: DAMATTA, Roberto. O que faz do Brasil, Brasil? 18. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.
Formação cultural e populacional
- A cultura brasileira é fruto da miscigenação e da convivência de matrizes diversas (indígenas, africanos, europeus e, depois, imigrantes). A convivência nem sempre foi harmônica: a miscigenação nasceu de um processo violento (encontro forçado de povos).
- Indígenas e africanos não foram suprimidos: influenciam a língua, a religião, a música e os modos de vida. A diversidade é regional e heterogênea, não homogênea. A imigração teve papel relevante.
- A cultura brasileira é difícil de reconhecer de modo holístico justamente por essa composição plural.
Escravidão
- Pilar da economia colonial (cana-de-açúcar, mineração, depois café). Garantiu a centralidade da agricultura de exportação.
- Deixou marcas profundas nas desigualdades sociais e raciais que persistem. Não foi só aspecto econômico: moldou a formação cultural. Durou muito além da Independência (1822); a abolição foi em 1888. Os avanços sociais não resolveram a questão racial.
Arte e crítica social
- Realismo (literatura): rompeu com modelos europeus, aliou descrição de cenários tipicamente brasileiros a crítica social.
- Modernismo: estilos artísticos tipicamente brasileiros; marco na Semana de Arte Moderna de 1922.
- MPB e Rap: papel político de denúncia das mazelas sociais.
- Ditadura militar: a censura afetou a produção cultural (não era mero sistema de alertas).
Clássicos do pensamento social brasileiro
- Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil: o "homem cordial" mostra que afetividade e laços pessoais marcam as relações sociais e políticas. Não é "bondade" nem harmonia positiva, e é o oposto da impessoalidade e da razão burocrática: o público é tratado com critérios privados e afetivos.
- Raymundo Faoro, Os Donos do Poder: o patrimonialismo tem origem no modelo político português, em que Estado e elites se confundiam. O Estado foi historicamente apropriado por interesses privados e o padrão persistiu após a República.
Armadilhas comuns (conceitos que costumam ser trocados)
- Solidariedade mecânica é de Durkheim, não de Bourdieu. Bourdieu trabalha com campo, habitus e capital.
- Bourdieu não se limita à economia: articula política, cultura e poder. Capital cultural (educação e conhecimento) ajuda a explicar a reprodução das diferenças de classe. A cultura não é autônoma em relação às desigualdades. Campo não é espaço físico, é espaço de disputa estruturado por posições. Habitus não é lei universal, é disposição adquirida e historicamente situada.
- Foucault: o poder é difuso, capilar, presente em escolas, hospitais e prisões, e não está só no Estado. Saber e poder estão ligados e são centrais. Não se restringe à religião, nem à economia.
- Escola de Chicago: pesquisa empírica e qualitativa, com contato direto com os sujeitos, e interesse por marginalidade, migração e interação social. Estudou a cidade, não só as elites. O interacionismo simbólico é legado central.
- Interacionismo simbólico: prioriza significados e interações cotidianas.
- Os três clássicos têm métodos diferentes e conclusões diferentes sobre o funcionamento da sociedade, mesmo com temas parecidos. O materialismo histórico-dialético é de Marx (não de Durkheim). A sociologia compreensiva é de Weber (positivismo = Comte; funcionalismo = Durkheim). Weber não busca "harmonia social": anomia é conceito de Durkheim. Marx não defendia aproximar a sociologia da biologia.
- Conceitos e autores: Ação social e tipo ideal = Weber. Materialismo histórico e luta de classes = Marx. Estágios metafísico e positivo = Comte. Fato social e anomia = Durkheim.
- Divisão do trabalho (Durkheim): quanto maior a divisão do trabalho, mais complexa e interdependente a sociedade, o que consolida a solidariedade orgânica. A industrialização muda os vínculos de solidariedade (mecânica para orgânica). Divisão do trabalho não é só produtividade econômica.
- Marx, resumo das afirmações típicas: alienação do trabalho (o trabalhador se aproxima de mercadoria ao vender sua força de trabalho); dominação ideológica ajuda a explicar por que os explorados não se revoltam; as revoluções sociais inauguram nova ordem quando a anterior colapsa e, para Marx, o capitalismo deve acabar por revolução socialista; o capitalismo é um período novo, mas Marx não o vê como ruptura total com tudo o que veio antes, e sim como etapa histórica dentro de uma sequência de modos de produção.
- Antropologia: mudança cultural interna (dinâmica do próprio sistema) e externa (contato entre sistemas); Lévi-Strauss = Estruturalismo (perspectiva comparativa, regras que fundam a cultura, ex.: proibição do incesto); Malinowski = observação participante, não "relato de viagem", não "descrição densa" (que é de Geertz), não relativismo como método; etnografia descreve a cultura, não ranqueia o grau de desenvolvimento; comparar culturas é possível e legítimo (o problema é comparar com viés evolucionista); relativismo não pede abandonar as próprias crenças, pede reconhecer que cada cultura tem contexto, valores e significados próprios; etnocentrismo também pode ser retirar a autonomia de outro povo, tratando-o como primitivo e dependente.
- Clastres: progresso e riqueza não são características naturais dos homens. Sociedades sem Estado produzem só o necessário (3 a 4 horas por dia) por escolha, não por falta. O Estado e a economia capitalista não são o estágio final das sociedades. Chamar tais povos de "atrasados" ou "selvagens" é etnocentrismo.
- Contemporaneidade: as tecnologias mudaram a sociabilidade e trouxeram desinformação e vigilância; problemas como clima e pandemias exigem olhar global; a complexidade pede abordagem interdisciplinar.
Ligações entre autores (para as questões que misturam aulas)
- Hobbes × Foucault: Foucault pede para sair do modelo Leviatã e olhar o poder fora da soberania jurídica.
- Hobbes × Maquiavel: os dois têm natureza humana má e imutável; Hobbes fundamenta num contrato.
- Marx × Bourdieu: capital econômico (Marx) ampliado para social, cultural e simbólico (Bourdieu), que critica o "reducionismo econômico".
- Durkheim × Weber: Durkheim, objeto (sociedade acima do indivíduo); Weber, sujeito (ação social e sentido). Chicago (interacionismo) e Goffman ficam do lado de Weber, contra Durkheim.
- Tylor × Boas: evolucionismo unilinear versus particularismo histórico.
- Mauss, Clastres e Quijano: dádiva como fato social total; crítica ao etnocentrismo na ideia de "sociedade sem Estado"; colonialidade e raça.
- Foucault na Aula 7: governamentalidade algorítmica e plataformas.
- Thomas (Chicago) × Goffman × Becker: teorema da "definição da situação" aparece nos três (rotulação e estigma).
- Durkheim × Chicago × Becker: anomia e desorganização social versus rotulação do desvio.
Antes de entrar na prova
- Cite o livro que marca o nascimento de cada Ciência Social e o ano.
- Compare os 4 contratualistas em natureza humana, estado de natureza, poder e propriedade.
- Defina cultura (Tylor), etnocentrismo, particularismo histórico (Boas) e observação participante (Malinowski).
- Explique dádiva (Mauss) em 3 verbos: dar, receber e retribuir.
- Diferencie pós-colonial, decolonial e epistemologias do Sul (data, lugar, ideia).
- Diga a lei dos três estágios de Comte e a diferença entre estática e dinâmica social.
- Fato social (Durkheim): exterior, coercitivo e objetivo. Solidariedade mecânica × orgânica. Anomia.
- Marx: infra × superestrutura, mais-valia, as 4 alienações, os 6 modos de produção.
- Weber: ação social, tipo ideal, 3 tipos de dominação, jaula de ferro, classe × partido × estamento.
- Bourdieu: campo, habitus, os 4 capitais, violência e luta simbólica.
- Foucault: arqueologia, genealogia, ética de si; as 4 tecnologias de poder; governamentalidade.
- Chicago: Teorema de Thomas, associação diferencial (Sutherland), rotulação (Becker), definição da situação (Goffman).
- Sociologia digital: plataformização (3 dimensões), dataficação, capitalismo de vigilância (Zuboff) e os 5 tipos de plataforma (Srnicek).
- Problemas sociais urbanos: causas (êxodo rural, urbanização desordenada) e o papel das Ciências Sociais nas políticas públicas.
Fontes
- Slides "Estudos Socioantropológicos", Aulas 1 a 7, Prof. Pablo Ornelas Rosa (UVV EAD).
- Referências citadas nos slides: Weffort (org.), Os clássicos da política, vol. 1; Laraia, Cultura: um conceito antropológico; Mauss, Ensaio sobre a dádiva; Clastres, Sociedade contra o Estado e Arqueologia da violência; Quijano, Colonialidade do poder; Aron, As etapas do pensamento sociológico; Quintaneiro, Barbosa e Oliveira, Um toque de clássicos; Sell, Introdução à Sociologia Política; Rosa e Sonni, Sociologia Política; Bourdieu, Coisas ditas; Lemos, Foucault e a justiça pós-penal.
- Gomes (2024), texto de fechamento da lição.